A Justiça de São Paulo investiga a venda de carteiras de créditos falsos do Digimais ao fundo EXP 1, informa a revista Piauí

Após o escândalo envolvendo o Banco Master, uma nova crise de proporções bilionárias está para estourar no setor financeiro.

O Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, enfrenta um cenário de grave crise financeira, com estimativas de patrimônio líquido negativo em cerca de R$ 8,5 bilhões.

Segundo reportagem da revista Piauí, a nova fraude aponta para a atuação fraudulenta do Banco Digimais, instituição do bispo da Igreja Universal, Edir Macedo, proprietário da TV Record e apoiador Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022.

A Justiça de SP investiga a venda das carteiras de créditos falsos do Digimais ao fundo EXP 1, a exemplo do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O modus operandi do Digimais se assemelha ao do já liquidado Banco Master: aumento artificial de ativos em seus fundos com o fim de melhorar (diga-se, mascarar) o balanço do banco, para que possa emitir mais Certificados de Depósito Bancário (CDBs), com oferta de rendimentos muito acima aos ofertados por instituições tradicionais, chegando a atingir 125% do CDI.

Também há proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (para depósitos de até R$ 250 mil) e uso de plataformas de investimento de grande porte, como XP e BTG, para disseminação desses títulos no mercado.

A relação do bispo Edir Macedo com o setor bancário começou em 2009, quando ele adquiriu 40% do banco gaúcho Renner, que pertencia à varejista Renner. A participação acionista do Bispo aumentou para 49% em 2013, até que, em 2020, ele assumiu o controle total da instituição. Com a compra definitiva, o banco foi rebatizado como Digimais e sua sede transferida de Porto Alegre para São Paulo.

Questionado pelo EXP1, o Banco Digimais confirmou que os créditos não existiam e ofereceu novas carteiras. O EXP1 declinou, porque os originadores das carteiras eram os mesmos, ou seja, a Reag e o Master. O fundo pediu a devolução do dinheiro investido, mais os juros do período.

Fraude equivalente ao Master

O Digimais tentou uma negociação e pediu um prazo para ajustar o pagamento. O EXP1 entrou na Justiça e comunicou a fraude ao Banco Central (BC). Um mês depois veio à tona o escândalo do Master, com a venda de carteiras de crédito fraudadas para o BRB, no valor de 12,2 bilhões de reais.

A Digimais possui muitas conexões com o Master, não só por ter a mesma classe de ativos, mas por contar com gestores que passaram pelo banco de Daniel Vorcaro. A corretora que gere os fundos do Digimais, a ID, por exemplo, conta entre seus sócios e administradores Rodrigo Balassiano, que foi executivo da corretora do Banco Master antes de assumir a liderança da ID corretora.

ID E REAG: SEMELHANTES

Em meio à crise do Banco Master, a ID Corretora registrou um salto expressivo em seu patrimônio, que atingiu a marca de R$ 5,2 bilhões. O crescimento atípico levantou suspeitas no mercado financeiro, de que a instituição estaria absorvendo as carteiras da Reag Investimentos.

A Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025 para desarticular um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal vinculado à organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). O BC decretou a liquidação da Reag em janeiro deste ano.

A Reag controlava mais de 600 fundos vinculados ao grupo Master e está sob a suspeita de usar fundos para ocultar valores de combustível adulterado e de movimentar cerca de 30 bilhões de reais.

O sócio fundador da ID, José Roberto Giancoli Filho, o Beto, como é conhecido os financistas, foi investigado pela CVM por várias irregularidades em administração de carteiras e por operações fraudulentas, entre 2008 e 2011. Além disso, a ID responde a 204 processos judiciais.

Parte do mercado financeiro já aponta críticas a Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, por facilitar a entrada de novas instituições financeiras sem o rigor necessário. Campos Neto presidiu o BC entre 2019 e 2024, por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em 2022, o Digimais já apresentava sérios problemas de caixa, registrando um prejuízo de mais de 740 milhões de reais.

Ante aos problemas do Digimais, leniente, Campos Neto teria apenas exigido a troca do presidente da instituição e de seus diretores.

Quem administrava o banco na época era o bispo João Urbaneja, que não tinha qualificação técnica e havia nomeado para a diretoria apenas pessoas ligadas à Igreja Universal.

Segundo a Piauí, ainda, Urbaneja deixou o cargo, mas nomeou para o seu lugar o seu filho, Thiago Urbaneja, de 41 anos de idade e também neófito nessa teia do mercado financeiro, o que contribuiu para o aprofundamento da crise