Agenda de privatizações, cortes nos benefícios sociais e mudança na Constituição foi rejeitada nas urnas por 64 milhões de brasileiros

 

Marcus Vinícius de Faria Felipe

 

Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro foram rejeitados pela maioria da população. A agenda da família não encontrou eco na maioria dos eleitores. A vitória do presidente Lula é a soma de todas as forças políticas do país, que uniu esquerda e direita contra um projeto extremista.

Se em 2018 o antipetismo elegeu Jair Bolsonaro, em 2022 e novamente, em 2026, o antibolsonarismo derrotou o extremismo.

Note, caro leitor, que não estou dizendo neste artigo “o antibolsonarismo derrotou a direita”. Faço isto por um motivo claro: parte significativa da direita votou contra o bolsonarismo, e por isto entendo que é preciso separar direita de bolsonarismo.

O bolsonarismo é um movimento reacionário enquanto a direita é uma ideologia conservadora. O dicionário destaca que “o reacionário quer reverter o movimento da história, andando para trás, quer restaurar uma ordem passada, muitas vezes idealizada e mítica, que foi perdida”. Já o conservadorismo “procura manter o fluxo do tempo avançando de forma lenta, cautelosa e gradual. Não é contra toda e qualquer mudança, mas prefere a continuidade, o que já foi experimentado e o que funciona na prática”.

Os conservadores e os progressistas se uniram para defender a Constituição de 1988, porque foram eles, juntos, que promulgaram a Carta Magna Brasileira após a longa noite de 21 anos da ditadura.

Conservadores e progressistas não concordaram com a proposta de Flávio Bolsonaro de acabar com marcação da munição, de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, instituições que são o pilar do financiamento do agronegócio e da construção civil. Direta e esquerda também rejeitaram a tese de Flávio Bolsonaro de reescrever a Constituição Federal e de atrelar a economia brasileira aos Estados Unidos, pois o grande agronegócio brasileiro sabe que os norte-americanos são os principais concorrentes da nossa soja, milho, carne bovina e aves.

O bolsonarismo perdeu porque não é sustentável nem economicamente, nem socialmente e nem politicamente. O bolsonarismo é hegemonista, e quando Flávio Bolsonaro começou a “governar” na primeira semana do 2º turno, e disse que o PL com seus 121 deputados federais e 28 senadores iria eleger os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, os partidos do Centrão (MDB, PSD, União, PP) jogaram Flávio Bolsonaro na frente do ônibus e aprovaram o fim da escala 6×1!

A adesão do bolsonarismo à intolerância religiosa afastou os conservadores católicos que são fiéis às suas tradições, como o culto à Nossa Senhora Aparecida, ao Círio de Nazaré e ao Divino Pai Eterno.

Flávio também assustou o protestantismo (batistas, presbiterianos, assembleianos) e também espíritas, umbandistas, candomblecistas, islâmicos e judeus que preferem o Estado Laico ao “Evangelistão” bolsonarista.

Com a derrota de Flávio Bolsonaro o bolsonarismo terá muita dificuldade para se reerguer. É claro que o movimento conta com o apoio externo do presidente yankee Donald Trump, porém, a direita conservadora não concorda com este “patriotismo” bolsonarista  pró-Estados Unidos e a sua agenda de entrega das riquezas naturais brasileiras à Washington, e isto enfraqueceu a narrativa reacionária.

Sem Flávio e Jair, o bolsonarismo tende a se desmilinguir, e a direita conservadora, que joga nos marcos da Constituição, deve ocupar paulatinamente este espaço.

Peraí, você está dizendo que a direita derrotou o bolsonarismo, então não foi Lula que venceu a eleição?

Nada disso.

A liderança do presidente Lula foi fundamental para catalisar os votos dos segmentos políticos ao centro e à direita do espectro político. Lula (PT) e o seu vice, Geraldo Alckmin (PSB) foram competentes em atrair apoios ao projeto que representam, qual seja, um governo de Frente Ampla Nacional, de defesa da soberania, da democracia e do desenvolvimento do país valorizando as empresas e as tradições brasileiras.

Lula venceu porque fez a leitura certa neste segundo turno, e porque a sociedade reagiu, num movimento que só foi visto há 42 anos atrás, nas multidões que tomaram as ruas e avenidas na campanha das Diretas Já.

Lembremos que o palanque as Diretas Já uniu direita e esquerda pela redemocratização. A ideia começou a tomar forma com o senador Teotônio Vilela, que abriu dissidência no PDS, partido da ditadura militar, levando a criação do PFL (Partido da Frente Liberal). A Aliança Liberal, que coordenou dissidentes do arbítrio foi comandada pelos senadores José Sarney (MA), Marco Maciel (PL), que somaram forças com os governadores Tancredo Neves (MDB-MG), Franco Montoro (MDB-SP), Iris Rezende (MDB-GO), Leonel Brizola (PDT-RJ) e com o líder metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva (PT) para mudar o país.

A campanha Lula-Alckmin, portanto, é fiel às lições da redemocratização, que uniu forças das mais diversas matizes políticas, e colocou o povo nas ruas para defender os interesses maiores da população, quais sejam, a construção de um país com inclusão social, democracia e liberdade.

Flávio perdeu.

A democracia ganhou.

Agora é governar com apoio de todos os democratas, sejam eles progressistas ou conservadores.