Pressão da sociedade faz presidente da Câmara e Tarcísio recuarem do projeto
Marcus Vinícius de Faria Felipe
A anistia ampla geral e irrestrita, com a qual sonham as principais lideranças do bolsonarismo não irá acontecer. Vários fatores conspiram para que não aja perdão ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP), que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, no dia 11/09. O principal é pressão social contra o projeto, já identificada pela pesquisa Datafolha, onde 54% dos entrevistados responderam que são contra anistia para Bolsonaro e os demais condenados.
Além da pressão das ruas, os principais veículos de comunicação do país (O Globo, Folha, Estadão) publicaram reiterados artigos e editoriais contra o indulto aos que conspiraram contra a democracia. Mas é no campo político que Bolsonaro tem seu maior adversário. O ex-presidente perde força junto a aliados, que temem pautar a anistia e perderem votos nas eleições de 2026.
O primeiro sinal de enfraquecimento de Bolsonaro veio do presidente de seu partido, o PL, Valdemar Costa Neto, que admitiu que houve sim preparativos para um golpe de Estado no país. Embora tenha tentado amenizar sua fala, o fato é que Valdemar jogou Bolsonaro ao mar.
“Houve um planejamento de golpe, mas nunca teve o golpe efetivamente. No Brasil a lei diz o seguinte: ‘Se você planejar um assassinato, mas não fez nada, não tentou, não é crime’. O golpe não foi crime. O grande problema nosso é que teve aquela bagunça no 8 de Janeiro e o Supremo diz que aquilo foi golpe,” disse Valdemar.
Câmara e Senado recuam
O presidente da Câmara Federal, Hugo Mota (PP-PI) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), parece que captaram a mensagem de Valdermar Costa Neto, entendendo que não há clima para pautar anistia.
Segundo reportagem do jornal O Globo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), avalia que o tema perdeu força política e não encontra respaldo suficiente entre os deputados. A reportagem diz que interlocutores próximos a Motta relatam que não há votos para aprovar um perdão irrestrito.
Ontem (15), Motta se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em almoço no Palácio da Alvorada, ocasião em que ouviu um apelo para que a Câmara não leve a anistia ao plenário.
No Senado, Davi Alcolumbre já disse que não pauta projeto de anistia geral, informando que está inclinado a discutir uma proposta alternativa, que prevê alterações no Código Penal para reduzir as penas dos condenados pelos crimes relacionados a invasão à sede dos Três Poderes no dia 8 de Janeiro.
Tarcísio acuado
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que havia tomado frente da defesa da anistia dá demonstrações de recuo. Tarcísio foi muito criticado por aliados e pelos jornalões pela suas críticas ao Supremo. Sua equipe também está de olho nas pesquisas percebendo que 60% da população não tem simpatia alguma por livrar Bolsonaro e os generais da cadeia. Os estratos sociais que mais querem ver na cadeia os que atentaram contra a democracia são os jovens, os assalariados, os católicos e os eleitores do Nordeste. Ou seja, defender a anistia não dá voto.
Tarcísio de Freitas também está sendo cobrado pelo eleitor paulista a ficar mais no Estado, onde pipocam denúncias de corrupção envolvendo auxiliares do seu governo e o PCC (Primeiro Comando da Capital).
Isolamento
Bolsonaro terá como alternativa radicalizar seu grupo político, e neste sentido o ex-presidente não deverá ungir nenhum dos candidatos da direita. A tendência é que o senador Flávio Bolsonaro, o “filho 01” seja o candidato do grupo. Dos Estados Unidos, o deputado trumpista Eduardo Bolsonaro também ensaia projeto de candidatura presidencial, indicando que deve trocar o PL pelo PRTB, partido que foi denunciado na campanha de Pablo Marçal como braço político do PCC.
Ao fim e ao cabo, Bolsonaro e o bolsonarismo devem perder aliados e radicalizar ainda mais. Seu objetivo não será a vitória de Tarcísio, mas a eleição de deputados e senadores, pois a meta é tentar fazer maioria na Câmara e no Senado para tirar o “mito” da cadeia, pois a meta é tornar Bolsonaro elegível em 2030, quando Lula não será mais candidato. E é isto que torna incompatível o apoio de Bolsonaro a qualquer candidato que não seja ele próprio ou um dos seus.