Parabéns aos “jênios”. Garantiram o quarto mandato para Lula. E vai ser no primeiro turno.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

“A esperteza, quando é muita, cresce, vira bicho e engole o dono”.

A frase acima é atribuída a Tancredo Neves, que foi de tudo um pouco: deputado federal, primeiro-ministro, governador de Minas Gerais e o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar.

Tancredo era um gênio da política,  esperto no sentido de astúcia, sagacidade.  Foi a sua capacidade ocupar espaços na hora certa que o ajudou a derrotar a ditadura no seu próprio jogo, o Colégio Eleitoral.

A esperteza da dupla Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) , no entanto, é outra, no sentido de solércia e ardileza, e vai engolir os dois.

Há cinco dias ambos articularam a rejeição pelo Senado da indicação do presidente Lula (PT) de um ministro ao Supremo Tribunal Federal.

Tico (Alcolumbre) e Teco (Flavio) vetaram um homem probo, declaradamente evangélico e conservador nos costumes, de assumir a vaga deixada pelo ministro Luis Barroso.

Impediram a ascensão do Advogado Geral da União (AGU), Jorge Messias, não pelas suas qualificações, que eram ótimas. Ao contrário. Vetaram-no por suas virtudes imprescindíveis ao cargo, quais sejam o notável saber jurídico, a reputação ilibada e  a postura implacável no combate à corrupção.

“O ministro Jorge Messias tem tido uma participação essencial no combate à corrupção. Ele deu sustentação ao Ministério da Fazenda para acabar com alguns esquemas de corrupção de anos como o caso da Reag, o caso do Master, o caso da Refit, grandes esquemas de corrupção, como o caso do INSS, foi desbaratado também nesse governo. Esses casos todos contaram com uma Advocacia Geral da União de prontidão para ajudar os ministérios a fazer o que tinha que ser feito, agir contra o crime organizado, agir contra à corrupção”, declarou o ex-ministro da Fazenda Haddad.

Então, se indicado era um sujeito capacitado, por que os “espertos” impediram a sua aprovação para uma das onze cadeiras do STF?

Até os postes de Brasília jogam luz neste caso: a dupla vetou Messias por temer sua disposição de ir fundo nos inquéritos do Rombo do INSS e do escândalo do Banco Master.

Lembremos que Davi Alcolumbre indicou um aliado para o fundo de previdência do Amapá (Amaprev), que investiu R$ 400 milhões no Banco Master. Seu assessor de confiança e ex-chefe de gabinete, Paulo Boudens, recebeu 3 milhões da Arpar Participações e Empreendimentos, empresa ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.

Sob Flávio Bolsonaro pesam também acusações de ligação como Careca do INSS, e a lembrança de que o cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, foi um dos principais doadores da campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões).

 

Colunista do UOL, Leonardo Sakamoto resumiu a atuação do presidente do Senado e do candidato à presidência:

“O Alcolumbre queria (o senador) Rodrigo Pacheco no Supremo. E a pergunta é por que Rodrigo Pacheco. Era que o Pacheco ia ser um nome do Parlamento no Supremo para tentar ajudar a segurar a onda de ações por conta de emendas, por conta do Master, por conta de várias coisas nesse sentido. Seria um representante do Parlamento dentro do STF. Na hora que o Messias pega mãos dadas com o André Mendonça, e o André Mendonça vira padrinho do Messias, e o André Mendonça é relator do Master, relator do INSS, então uma parte do centrão e do próprio Alcolumbre fala: ‘Pera lá, assim não dá’.

Os “jênios” – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Ao esculhambar a indicação de Messias, os “jênios” da raça assinaram a confissão de culpa e deram ao presidente Lula (PT) e à bancada governista a trator com qual serão atropelados e enterrados: Lula vai encampar o pedido de criação da CPMI do Banco Master e vai bater um carimbão de corruptos nos “jênios”.

Não bastasse esta lambança contra Messias, Davi e Bolsonarinho dobraram a aposta e articularam a aprovação o PL da Dosimetria.

Aplicaram em si próprio mais um carimbo: afrouxar pena para bandido. Para opinião pública fica a impressão que o único projeto de Bolsonarinho é tirar o pai da cadeia, e o de Davi é não ir para prisão.

Até antes da sessão do dia 30 de abril, os bolsonaristas tentavam impingir culpa ao governo Lula pelos escândalos do INSS e do Banco Master, de agora em diante, para o eleitor, vai ficar cada vez mais claro – parafraseando Eliene Catanhêde – que esta “elite malcheirosa do Congresso Nacional”, quer impedir o combate amplo à corrupção neste país.

Parabéns aos “jênios”. Garantiram o quarto mandato para Lula. E vai ser no primeiro turno.