O neoliberalismo não é seguido nem por Donald Trump nos Estados Unidos e está na hora de deixar de ser modelo para economia do Brasil

 

Marcus Vinícius de Faria Felipe

A Batalha de Galípoli, travada entre 19 de fevereiro de 1915 e janeiro de 1916,  foi a maior derrota do exército inglês na Primeira Guerra Mundial e quase destruiu a carreira política de Wilston Churchil, que foi o idealizador da operação, que pretendia tomar da Turquia o Estreito de Dardanelos, no  Mar Egeu. O apego  do presidente do Banco Central, André Galípolo, em manter a política econômica neoliberal de controle da inflação pela restrição monetária por pouco impede Lula de chegar ao quarto mandato.

Em Galípoli Winston Churchill quis surpreender o exército turco, mas subestimou o adversário e o resultado foi 187 mil mortos e feridos e 213 mil baixas totais. Já no Brasil de 2026, a insistência de André Galípolo em sufocar a economia com juros excorchantes, mantendo o “Bolsa Rentista” para os Faria Limers, quase deu a vitória a Flávio Bolsonaro nas eleições de outubro.

Em Galípoli, na Turquia, Winston Churchill enterrou 187 mil soldados, no Brasil, taxa Selic de Galípolo quase deu a vitória a Flávio Bolsonaro, que faria a população voltar à fila do osso

Fazendo o jogo do adversário

Restrição monetária, caro leitor, é a expressão em economês para controle da inflação através da taxa de juros. Funciona assim, o Banco Central aumenta a taxa de juros, esperando que a restrição ao crédito leve à queda do consumo do povão. Com menos gente comprando, sobra produto, e pela lei da oferta e da demanda, quanto mais produto na praça, e menos comprador nas lojas, a tendência de queda nos preços é inevitável.

É o tal do remédio que funciona no início, mas seu uso contínuo leva à morte do paciente, porque os efeitos colaterais ao longo do tratamento são maiores que os benefícios. Neste caso estamos falando da redução da atividade econômica, endividamento de empresas e famílias e MEI’s e no desestímulo à produção, pois com juros reais de 10% acima da inflação, aplicar em fundos de renda fixa ou títulos da dívida pública é mais atrativo do que investir na produção.

 

Dito isto, não dá para passar pano para o presidente do BC, Gabriel Galípolo, após a decisão nesta última quarta-feira (4/11) de manter a taxa Selic em 13,75%. O jovem de 44 anos que assumiu a presidência do Banco Central em 1º de janeiro de 2025 manteve a política restritiva de crédito e de contração da atividade econômica levada a cabo pelo seu antecessor, Roberto Campos Neto, que também marcou sua gestão por autorizar a transformação do Banco Máxima em Banco Master e por convidar o banqueiro Daniel Vorcaro para reunião em sua residência.

 

É preciso lembrar que Gabriel Galípolo liquidou o Banco Master assim que subiu ao esgoto as falcatruas do banqueiro ladrão de dinheiro de aposentados, mas a diferença parou por aí.

 

Após tomar posse o novo presidente do BC comandou 10 reuniões do COPOM  e de janeiro de 2025 a março de 2026, promoveu quatro (4) elevações da SELIC (de 13,25% a 15%), seguidas de outros 5 encontros em que a taxa foi mantida em cerca dec 15% (14,90%).

Relação Juros x Dívida PIB – infográfico/reprodução Jornal da Bahia

Taxa Selic  aumentou a dívida pública

Roberto Campos Neto assumiu o Banco Central em 28 de fevereiro de 2019, com a taxa Selic a 6,40% ao ano. Em 2020, com advento da pandemia da Covid19, a Selic fechou o ano 1,90% a.a. Sob sua gestão a taxa chegou a 13,65%, caindo em dezembro de 2024 a 12,15% a.a.. Após assumir em janeiro de 2025, André Galípolo aumentou, numa paulada só, a Selic em um ponto percentual, passando para 13,15%. Em 19/03/25, novo salto de um ponto e a Selic pulou para 14,15% e em 18/06/25 chegou a 14,90%, patamar que se manteve até 18/03/26, quando Galípolo iniciou pequenos cortes até chegar a esta taxa de 13,75%, recém anunciada (ver box no final da página).

Ao manter o viés de alta da Selic, as gestões de Campos Neto e André Galípolo contribuíram para o aumento da dívida pública do país.

Durante o mandato de Campos Neto, a relação oscilou de 88,6% em 2020 para 73,9% em 2022 note-se que neste período o viés da taxa Selic foi de baixa. Com a retomada do aumento dos juros a partir de 2023, a taxa saltou para 79,8%, subindo a 81% em 2024, alcançando 84% neste final de 2026, conforme mostra o infográfico acima.

Economista de Flávio iria manter a Selic em alta cortando R$ 250 bilhões dos programas sociais para manter o “Bolsa Rentista”

Juros quase derrotaram Lula

Ao manter a taxa de juros em alta, mesmo com a inflação dando sinais de queda, André Galípolo deu um breque na retomada do crescimento econômico e quase comprometeu a reeleição do presidente Lula. Embora no cenário internacional o presidente Lula tivesse conquistado mais de 400 mercados para produtos brasileiros, e a economia brasileira termine em 2026 na oitava posição mundial, no cenário nacional os juros altos do Banco Central implicaram no endividamento das famílias, dos MEI (Micro empreendedores individuais) e na sensação de a oposição estava correta quando verbalizava que “a economia brasileira está quebrada”.

É preciso dizer que também houve falha comunicação do governo, como o próprio presidente reconheceu. Faltou ao governo Lula 3 explicitar nos primeiros meses de sua administração que encontrou o país realmente quebrado, com um déficit superior a R$ 230 bilhões. Por mais que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad tenha dado entrevistas expondo que este déficit primário de R$ 230,54 bilhões se devia a dívidas deixadas pelo governo de Jair Bolsonaro, como  à quitação de passivos, precatórios e outros gastos, para população isto não ficou claro.

As políticas compensatórias do governo Lula 3 foram positivas.  O Palácio do Planalto acertou reativando programas como o Farmácia Popular,  acertou na retomanda do reajuste acima da inflação do salário mínimo e dos proventos dos aposentados e acertou também com a criação do Pé-de-Meia. Os juros altos, porém, tiveram o condão de anular parte destas conquistas, estabelecendo o mau-humor de parte significativa do eleitorado com o governo, e isto é uma das explicações do por quê a administração Lula-Alckmin – tão exitosa na reconstrução da economia real, com ax reindustrialização e da proteção ao mercado brasileiro -, não tenha alcançado aprovação do eleitor. E foi esta dissonância que deu vazão ao discurso do “país quebrado”, permitindo o candidato de oposição, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vencer o primeiro turno das eleições de 2026.

 

André Lara Rezende acerta no diagnóstico: desindexar os juros

 

O ex-ministro  André Lara Rezende, um dos economistas que participou a criação do Plano Real, que em 1995 pôs fim à hiperinflação que há 25 anos inviabilizava a economia brasileira, está correto em apontar a necessidade de pôr fim ao modelo atual de financiamento do Estado Brasileiro.

Seu artigo, publicado no mês de setembro, é certeiro no título em que acusa o Banco Central (BC) de causar desequilíbrio fiscal no Brasil por meio das altas taxas de juros.

 

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater,” pontua.

 

Lara Rezende também denuncia o complô entre mídia e a Faria Lima para manter o “Bolsa Rentista”:

 

“Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.”

O artigo de André Lara Resende põe o dedo na ferida e fala a verdade incômoda que o atual presidente do BC e os membros do Copom teimam em não ouvir:

“Acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade”.

Coube a doutora em economista Mônica de Bolle, explicitar a importância da proposta apresentada Lara Resende. Ex-diretora do Fundo Monetário Internacional, de Bolle afirma que a redução da Selic, de 13,75% atualmente, para cerca de 7,5%,  consiste em reduzir a vinculação dos títulos públicos às taxas de juros pós-fixadas, especialmente à Selic.

“A proposta do André é: vamos desindexar a dívida pública brasileira e tem coerência com a estratégia adotada pelo Plano Real para combater a hiperinflação nos anos 1990”, explica.

O governo Lula 4 deve prestar atenção nas palavras de André Lara Rezende, de que remuneração pós-fixada, que acompanha a variação da Selic ao longo do período de aplicação, é a causa maior do endividamento do Estado e das famílias.

O governo Lula 3 entrou para história dos trabalhadores ao pôr fim à escala 6×1 e abrir caminho para a 5×2, dando dois dias de folga para o trabalhador. O Lula 4 deve perseguir a meta de pôr fim ao “Bolsa Rentista” e abrir o caminho para que a economia brasileira tenha crescimento nos moldes da China e da Índia, acima dos 5%, e pare de ter vôos de galinha de 2%. Se não romper com o Consenso de Washington (que aliás nem os EUA seguem mais), Lula ficará refém do 1% que não quer o desenvolvimento do Brasil.

Parafraseando Monteiro Lobato:

“Ou Lula acaba com o modelo econômico neoliberalista ou o neoliberalismo vai acabar com o Brasil”

 

 

Histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom e evolução da taxa Selic (2019-2026)

Reunião Período de vigência Meta Selic
% a.a.
(2)(4)
TBAN
% a.m.
(3)(4)
Taxa Selic
nº data viés (1) % (5) % a.a. (6)
282ª 04/11/2026 n/a 05/11/2026 – 13,75 n/a
281ª 16/09/2026 n/a 17/09/2026 – 04/11/2026 13,75 n/a 1,69 13,65
280ª 05/08/2026 n/a 06/08/2026 – 16/09/2026 14,00 n/a 1,51 13,90
279ª 17/06/2026 n/a 18/06/2026 – 05/08/2026 14,25 n/a 1,86 14,15
278ª 29/04/2026 n/a 30/04/2026 – 17/06/2026 14,50 n/a 1,78 14,40
277ª 18/03/2026 n/a 19/03/2026 – 29/04/2026 14,75 n/a 1,53 14,65
276ª 28/01/2026 n/a 29/01/2026 – 18/03/2026 15,00 n/a 1,84 14,90
275ª 10/12/2025 n/a 11/12/2025 – 28/01/2026 15,00 n/a 1,84 14,90
274ª 05/11/2025 n/a 06/11/2025 – 10/12/2025 15,00 n/a 1,33 14,90
273ª 17/09/2025 n/a 18/09/2025 – 05/11/2025 15,00 n/a 1,95 14,90
272ª 30/07/2025 n/a 31/07/2025 – 17/09/2025 15,00 n/a 1,95 14,90
271ª 18/06/2025 n/a 20/06/2025 – 30/07/2025 15,00 n/a 1,61 14,90
270ª 07/05/2025 n/a 08/05/2025 – 19/06/2025 14,75 n/a 1,64 14,65
269ª 19/03/2025 n/a 20/03/2025 – 07/05/2025 14,25 n/a 1,69 14,15
268ª 29/01/2025 n/a 30/01/2025 – 19/03/2025 13,25 n/a 1,63 13,15
267ª 11/12/2024 n/a 12/12/2024 – 29/01/2025 12,25 n/a 1,51 12,15
266ª 06/11/2024 n/a 07/11/2024 – 11/12/2024 11,25 n/a 0,97 11,15
265ª 18/09/2024 n/a 19/09/2024 – 06/11/2024 10,75 n/a 1,42 10,65
264ª 31/07/2024 n/a 01/08/2024 – 18/09/2024 10,50 n/a 1,38 10,40
263ª 19/06/2024 n/a 20/06/2024 – 31/07/2024 10,50 n/a 1,18 10,40
262ª 08/05/2024 n/a 09/05/2024 – 19/06/2024 10,50 n/a 1,15 10,40
261ª 20/03/2024 n/a 21/03/2024 – 08/05/2024 10,75 n/a 1,33 10,65
260ª 31/01/2024 n/a 01/02/2024 – 20/03/2024 11,25 n/a 1,39 11,15
259ª 13/12/2023 n/a 14/12/2023 – 31/01/2024 11,75 n/a 1,45 11,65
258ª 01/11/2023 n/a 03/11/2023 – 13/12/2023 12,25 n/a 1,28 12,15
257ª 20/09/2023 n/a 21/09/2023 – 02/11/2023 12,75 n/a 1,38 12,65
256ª 02/08/2023 n/a 03/08/2023 – 20/09/2023 13,25 n/a 1,68 13,15
255ª 21/06/2023 n/a 22/06/2023 – 02/08/2023 13,75 n/a 1,53 13,65
254ª 03/05/2023 n/a 04/05/2023 – 21/06/2023 13,75 n/a 1,74 13,65
253ª 22/03/2023 n/a 23/03/2023 – 03/05/2023 13,75 n/a 1,38 13,65
252ª 01/02/2023 n/a 02/02/2023 – 22/03/2023 13,75 n/a 1,69 13,65
251ª 07/12/2022 n/a 08/12/2022 – 01/02/2023 13,75 n/a 2,05 13,65
250ª 26/10/2022 n/a 27/10/2022 – 07/12/2022 13,75 n/a 1,43 13,65
249ª 21/09/2022 n/a 22/09/2022 – 26/10/2022 13,75 n/a 1,23 13,65
248ª 03/08/2022 n/a 04/08/2022 – 21/09/2022 13,75 n/a 1,74 13,65
247ª 15/06/2022 n/a 17/06/2022 – 03/08/2022 13,25 n/a 1,68 13,15
246ª 04/05/2022 n/a 05/05/2022 – 16/06/2022 12,75 n/a 1,43 12,65
245ª 16/03/2022 n/a 17/03/2022 – 04/05/2022 11,75 n/a 1,45 11,65
244ª 02/02/2022 n/a 03/02/2022 – 16/03/2022 10,75 n/a 1,13 10,65
243ª 08/12/2021 n/a 09/12/2021 – 02/02/2022 9,25 n/a 1,40 9,15
242ª 27/10/2021 n/a 28/10/2021 – 08/12/2021 7,75 n/a 0,82 7,65
241ª 22/09/2021 n/a 23/09/2021 – 27/10/2021 6,25 n/a 0,57 6,15
240ª 04/08/2021 n/a 05/08/2021 – 22/09/2021 5,25 n/a 0,68 5,15
239ª 16/06/2021 n/a 17/06/2021 – 04/08/2021 4,25 n/a 0,57 4,15
238ª 05/05/2021 n/a 06/05/2021 – 16/06/2021 3,50 n/a 0,39 3,40
237ª 17/03/2021 n/a 18/03/2021 – 05/05/2021 2,75 n/a 0,34 2,65
236ª 20/01/2021 n/a 21/01/2021 – 17/03/2021 2,00 n/a 0,28 1,90
235ª 09/12/2020 n/a 10/12/2020 – 20/01/2021 2,00 n/a 0,21 1,90
234ª 28/10/2020 n/a 29/10/2020 – 09/12/2020 2,00 n/a 0,22 1,90
233ª 16/09/2020 n/a 17/09/2020 – 28/10/2020 2,00 n/a 0,22 1,90
232ª 05/08/2020 n/a 06/08/2020 – 16/09/2020 2,00 n/a 0,22 1,90
231ª 17/06/2020 n/a 18/06/2020 – 05/08/2020 2,25 n/a 0,30 2,15
230ª 06/05/2020 n/a 07/05/2020 – 17/06/2020 3,00 n/a 0,32 2,90
229ª 18/03/2020 n/a 19/03/2020 – 06/05/2020 3,75 n/a 0,46 3,65
228ª 05/02/2020 n/a 06/02/2020 – 18/03/2020 4,25 n/a 0,45 4,15
227ª 11/12/2019 n/a 12/12/2019 – 05/02/2020 4,50 n/a 0,65 4,40
226ª 30/10/2019 n/a 31/10/2019 – 11/12/2019 5,00 n/a 0,55 4,90
225ª 18/09/2019 n/a 19/09/2019 – 30/10/2019 5,50 n/a 0,63 5,40
224ª 31/07/2019 n/a 01/08/2019 – 18/09/2019 6,00 n/a 0,80 5,90
223ª 19/06/2019 n/a 21/06/2019 – 31/07/2019 6,50 n/a 0,72 6,40
222ª 08/05/2019 n/a 09/05/2019 – 20/06/2019 6,50 n/a 0,74 6,40
221ª 20/03/2019 n/a 21/03/2019 – 08/05/2019 6,50 n/a 0,82 6,40
220ª 06/02/2019 n/a 07/02/2019 – 20/03/2019 6,50 n/a 0,69 6,40

Fonte: Banco Central do Brasil