Após megaoperação da Polícia Civil e Militar do Rio de Janeiro (RJ), os moradores do Complexo da Penha, na zona norte, reuniram cerca de 60 corpos na praça São Lucas, na comunidade. As vítimas tem sinais de execução e foram encontrados no meio da mata entre os complexos do Alemão e da Penha.
O Complexo da Penha continua vivenciando cenas de terror no dia seguinte da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Desde a madrugada desta quarta-feira (29), moradores se mobilizaram para recuperar corpos abandonados na área de mata da comunidade, na Serra da Misericórdia, onde também ocorreram confrontos.

Cerca de 60 corpos foram levados para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, cobertos com lençóis e enfileirados. O balanço oficial do governo do Estado contabiliza 64 mortos na megaoperação. Se levado em conta as vítimas encontradas hoje na mata, o total pode se aproximar de 130 pessoas mortas. Além dos 4 policiais, nenhuma das vítimas foi identificada.
No local onde os corpos estão expostos, chegam familiares a todo momento. O ativista Raull Santiago relatou que o cenário é de corpos violados e desamparo. Por volta das 10h, o Corpo de Bombeiros chegou no local para retirar os corpos.
“Acabei de ver uma mãe identificando seu filho, uma filha identificando seu pai. A ficha começa a cair, o cheiro podre de pessoas mortas, o grito, o choro, corpos chegando. Mais pessoas estão sendo encontradas em partes da favela”, disse em vídeo nas redes sociais. Ao fundo é possível ouvir o choro de mães.
A Operação Contenção mobilizou 2,5 mil agentes dos polícias civil e militar nos Complexos da Penha e do Alemão, sob a justificativa capturar lideranças do Comando Vermelho, na última terça-feira (28). A resposta do crime organizado instaurou o caos na cidade e na região metropolitana, fechamento das principais vias expressas com barricadas, e sequestro de ônibus.
As fotos dos corpos enfileirados foram divulgadas por diversos jornais e as imagens fortes impactaram brasileiros. De acordo com o ativista Raull Santiago, a exposição foi um pedido dos familiares e moradores da região. O objetivo é mostrar a forma como as pessoas foram encontradas com evidências de execução e sem direito a defesa.

Execuções
Ainda segundo o ativista, os corpos não estão incluídos na contagem oficial de 64 mortos divulgado pelo governo do estado do Rio de Janeiro. Ainda não há pronunciamento do estado sobre a situação. Quando os novos cadáveres forem incluídos, o número de vítimas durante a megaoperação passará de 100.
“Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, eu nunca vi nada parecido com o que estou vendo hoje. É algo novo. Brutal e violento num nível desconhecido”, disse Raull Santiago.
A maioria dos corpos foram encontrados no meio da mata entre os complexos do Alemão e da Penha durante a noite e levados de carro para a praça. Os moradores ajudaram a colocar em fileiras que se estendeu por alguns metros. Ao redor, familiares tentavam identificar parentes e amigos.
A advogada das vítimas, Flávia Fróes do Instituto Anjos da Liberdade, relatou que um dos cadáveres foi encontrado completamente amarrado com um tiro na nuca. Segundo ela, dezenas dos corpos foram encontradas esfaqueados nas costas, tiros na nuca e outros indícios de execução que foram fotografados pela mídia e pelos familiares.
Moradores dos complexos do Alemão e da Penha relataram que ainda há outros corpos espalhados pela favela.
Por volta das 8h50, a Defesa Civil do Rio de Janeiro chegou para fazer a remoção dos corpos.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que o atendimento às famílias para o reconhecimento oficial ocorrerá no no prédio do Detran localizado ao lado do Instituto Médico-Legal (IML), a partir das 8h. O acesso ao IML será restrito à Polícia Civil e ao Ministério Público.
Com TVTNews e BdF