Nas redes sociais, entre um vídeo de yoga, uma meditação e outra, influenciadores postam informações falsas

Embora seja diretor de cinema, foi dirigindo um carro que Mikki Willis chegou ao “estrelato”, em 2015. Na época, o estadunidense viralizou ao compartilhar um relato rápido, gravado com seu celular, em que mostra seu filho de então quatro anos, sentado no banco do passageiro, feliz com seu novo brinquedo: uma boneca da pequena sereia.

O vídeo postado no YouTube viralizou, atingindo mais de 4 milhões de visualizações, e fez de Willis um importante personagem das redes sociais, onde costuma postar seu estilo de vida saudável, “cabeça aberta” e os trabalhos que faz com a sua produtora Elevate, descrita como uma mídia “socialmente consciente”.

Um dos últimos lançamentos de Willis e sua Elevate, porém, surpreendeu a todos. Em maio, o cineasta usou sua produtora para lançar o mini-documentário “Plandemic” – “plandemia”, em tradução livre, que brinca com as palavras “plano” e “pandemia”.

Ao longo dos 26 minutos, o influenciador dá voz à cientista Judy Mikovits, conhecida ativista anti-vacina, que alega que a crise sanitária mundial é motivada por interesses pessoais de grandes empresas e empresários.

O vídeo foi retirado do YouTube e outras plataformas, mas esse posicionamento contrário à vacina, sobretudo vindo de alguém tão conhecido da comunidade do bem-estar, está longe de ser erradicado.

A influencer Krystal Tini, seguida por mais de 170 mil pessoas na internet, é outro exemplo disso. À frente de um negócio de Yoga, a influenciadora digital usa o espaço da biografia para dizer que “fala a verdade”, e compartilha sem medo e sem moderação suas opiniões sobre (quase) tudo. Ao longo de toda a pandemia, Tini alimenta sua ampla base de seguidores com informações falsas e posicionamentos contrários à ciência.

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Há poucos dias, por exemplo, Tini foi ao Instagram repostar um tweet assinado pelo lutador de MMA Conor Mcgregor, que diz: “Forçar as pessoas a injetar qualquer coisa em seus corpos é errado. Eu não sou contra a vacina, eu sou contra não ter escolha”. Na legenda, a influenciadora reforça: “adoro ver esses caras lutando com a gente. Estamos todos cansados dessa bobeira”.

Publicações parecidas, vindo de pessoas que se dizem ou pelo menos se mostram como “iluminadas”, têm causado estranhamento entre seguidores, mas era algo já previsto pelo cientista social David Voas.

Professor da University College London, Voas cunhou nos idos de 2011 o termo “conspiritualidade”, que classificou como um “movimento na web em rápido crescimento que expressa uma ideologia alimentada pela desilusão política e pela popularidade de visões de mundo alternativas”.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Voas reafirma que era esperado esse posicionamento contrário à vacina vindo da comunidade do bem-estar. “Essa comunidade está intimamente ligada à medicina alternativa, que sempre teve uma relação muito problemática com a medicina convencional. Afinal, se você está tentando promover curas que não são respeitadas pela ciência, você deve causar suspeitas ou criticar a medicina moderna. E todas essas coisas, eu acho, criaram um contexto dentro do qual as pessoas no mundo do bem-estar acham possível contestar as descobertas gerais sobre covid e vacinas”, diz.

Isso explica, em partes, porque a campanha de vacinação em estados progressistas, como a Califórnia, estão deixando a desejar. Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, pouco mais de 62% de toda a população local está imunizada. Na Califórnia, a taxa é de 65%. No Brasil, país que teve de lidar com atrasos na entrega e na aplicação da vacina, o percentual total de imunizados é de quase 67%, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

“Estamos acostumados a pensar na espiritualidade alternativa como um movimento progressista feminino, que reúne pessoas otimistas, educadas, preocupadas com o bem-estar do outro, e não como pessoas que acreditam em coisas malucas. Mas acho que as coisas têm mudado um pouco, e as pessoas compram ideias ‘em pacote’, sabe? Então agora começa como uma preocupação com a covid, mas aí o fio segue até as teorias QAnon e outros absurdos”, continua Voas.

Nas redes sociais, muitos desses influenciadores “good vibes” pregam a defesa da liberdade como argumento principal de seu posicionamento anti-vacina ou contrário ao passaporte sanitário, e chegam a citar a obrigatoriedade dos governos como um ato fascista – comparado até ao nazismo de Hitler.

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“É uma analogia realmente ofensiva. Ninguém está sendo assassinado ou colocado em campos de concentração. Eu concordo que a medida seja um tanto paternalista, mas acho que é completamente errado sugerir que é fascista”, pondera o professor.

Apesar de seus contrapontos, Voas insiste que resistamos à ânsia de excluir da conversa pessoas com visões de mundo diferente, e encoraja abrir o diálogo sobretudo com a comunidade do bem-estar, que pode estar aberta a isso.

“Precisamos convencer essas pessoas que não é um problema de escolha. Você pode, por exemplo, escolher não usar cinto de segurança. Acho que é errado, mas é você quem vai se machucar em caso de acidente. Agora, não cabe a você decidir se vai dirigir embriagado – e acredito que ninguém entenda isso como uma escolha. Temos uma opinião muito firme de que se trata de um assunto de saúde pública, e que as pessoas têm a obrigação social e moral de estar sóbrio enquanto conduzem, porque, do contrário, representam um perigo para outras pessoas. E esse é realmente o caso, eu acho, com imunidade a uma infecção como a covid”.

Texto: Eloá Orazem – Edição: Thales Schmidt, do BdF